

Rogério Casanova está enganado. O seu testemunho é dúbio e, contrariamente ao que diz, a interpretação de Hélder Beja é legítima. Ou isso ou o Senhor Palomar e Hélder Beja (e já são dois) são incapazes de «perceber […] o que vem antes e depois na mesma frase». Ao ler as primeiras frases do texto de Rogério Casanova somos levados a pensar que o adjectivo competente se deve à revisão da obra (inclusive tipográfica, que Rogério Casanova aborda na primeira frase) e não revisão da tradução. «Uma modesta mas obstinada cabala tipográfica parece estar em curso. Em 1987, a Editorial Fragmentos publicou uma tradução de "O Leilão do Lote 49". A tradução era competente e, a espaços, inspirada - mas uma frase do texto original foi misteriosamente truncada. A presente edição da Relógio D'Água recupera a mesma tradução; uma revisão competente e, a espaços, inspirada uniformiza alguns tempos verbais anárquicos, corrige lapsos antigos e introduz lapsos novos …»
O Senhor Palomar considera que os críticos devem saber de edição de um ponto de vista profissional, contudo, entende e até poderá aceitar, em casos pontuais, o que Rogério Casanova indica: que a postura do crítico deve ser a de fazer vista grossa a erros de revisão, de forma a não afastar leitores de obras que considera fundamentais. Mas daí a dizer que se está «a cagar», talvez estejamos a ir um pouco longe de mais. Sobretudo quando escreve para meios como a LER e o Expresso, cujos leitores talvez não se estejam a cagar para omissões desse tipo, por parte dos críticos. Rogério Casanova deveria pensar nisso e recordar-se que quem lhe paga o salário não é o director financeiro das publicações, mas sim quem o lê.
Rogério Casanova é, indubitavelmente, uma das vozes mais originais, cultas e interessantes da imprensa portuguesa. Em breve será da literatura. Quando perguntam ao Senhor Palomar quem é que, entre os mais novos, vai ficar, o Senhor Palomar aponta quatro ou cinco nomes. Um desses é Rogério Casanova. O seu humor e ironia, cimentados numa bagagem intelectual que não se adquire nos 29 anos que tem, são de mais conhecidos, tendo conseguido criar à sua volta uma justa unanimidade. Essa unanimidade, em grande medida produto do registo corrosivo-psicadélico dos seus textos, trouxe-lhe igualmente um escudo protector que nos inibe a todos de rebater ou contrariar o que seja que Rogério Casanova escreve. Mesmo que não se conheça 95% dos autores de que este fala, não fica bem dizê-lo. Mesmo que se considere que a escolha é demasiado elitista, ninguém o quer apontar. Mesmo que, e isto é que importa ao Senhor Palomar (com o resto consegue conviver bem), este reaja com má educação e violência a quem foi polido com ele, não ficará bem assinalá-lo. Porque sabem que vão levar pela medida grande (coisa para a qual o Senhor Palomar olimpicamente se prepara).
Ninguém entra num ringue se souber que do outro lado tem um tractor. Mas se assim é, a verdade é que tão pouco se espera que Rogério Casanova tenha a mesma atitude que o rufia corpulento da primária do Senhor Palomar, que, como todos os rufias corpulentos, era muito temido, mas pouco respeitado. O Senhor Palomar não quer que Rogério Casanova se transforme no António Boi que batia em todos os colegas e por isso apela a que, quando Rogério Casanova polemizar com alguém, o faça com a graça e inteligência que lhe granjearam fama (inclusive junto do Senhor Palomar e do Hélder Beja). Espera que o registo de Rogério Casanova seja pelo menos tão correcto quanto o dos adversários: «Rogério Casanova, todos sabemos, venera Pynchon. Nenhum mal vem ao mundo, cada qual gosta do que quer. O que é grave é que Casanova, nesta crítica a O Leilão do Lote 49, escreva algo tão disparatado como que o livro tem «uma revisão competente e, a espaços, inspirada». A revisão é, só, do pior que me passou pelas mãos desde que ando nisto dos livros.»
Hélder Beja poderá ter sido um pouco duro. Mas não foi condescendente. Não tratou Rogério Casanova por cidadão. Não desmereceu a experiência em livros que Rogério Casanova possa ter (que, dadas as idades dos dois, será muito provavelmente similar). Dirigiu-se a Casanova com educação e Casanova respondeu com a ironia em mau estado de conservação, tratando-o por cidadão Hélder Beja. Subliminarmente, ou não, Rogério Casanova deixa cair uma ponta de desprezo pelo colega (Hélder Beja escreve no Público e na Os Meus Livros), o que nada dignifica o autor de Pastoral Portuguesa.
O que dignifica Rogério Casanova, isso sim (já sabemos), são os seus textos. Rogério Casanova escreve como poucos, levando-nos a ler qualquer coisa desde que da sua autoria. Rogério Casanova tem o dom de nos fazer ler sobre a pesca da sardinha no alto mar, fazendo-nos sentir que aquele tema será importante para o nosso quotidiano. Não tem o direito de nos fazer ler textos em que revela mau perder e mostra incapacidade de dizer “bom, talvez a palavra competente para aquela revisão não seja a mais indicada”. Em alturas de dúvida, Rogério Casanova deve optar pelo silêncio. E voltar a escrever sobre a pesca da sardinha no alto mar, que nós cá estaremos para lê-lo.
PS: Caso Rogério Casanova considere que este texto não faz qualquer sentido e que o mesmo deveria vir assinado por alguém cuja identidade é conhecida (o que seria estranho no caso de Rogério Casanova, mas enfim), o Senhor Palomar disponibiliza-se desde já para discutir cara-a-cara com Rogério Casanova sobre os vários níveis da palavra revisão. E Pynchon, já agora, que o Senhor Palomar sempre gostava que lhe fizessem um bom roteiro da obra, para não se espalhar na primeira curva. Ou na primeira cedilha indevidamente ceifada, vá.
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